No mês passado eu tive a chance de participar de uma viagem missionária, partimos na quarta-feira véspera de feriado. Foram cerca de 23h dentro de um ônibus com 25 pessoas focadas em glorificar e servir a Deus. Dispostas a se submeter ao que fosse preciso para que a obra fosse feita. Saímos do interior de São Paulo, com o destino em Antônio João – Mato Grosso do Sul, um total de 1.217 km. Chegando lá nos deparamos com um sitio precário, nada de conforto e nada de luxo. Depois de montarmos nossas barracas e arrumarmos tudo para o acampamento, nossos convidados chegaram. Os jovens índios Kaiowas, desceram do ônibus com um sorriso tímido e com os olhos exalando grandes expectativas para os dias que se seguiriam.

Tantas coisas aconteceram em apenas 5 dias, fui impactada de diversas maneiras com a grandeza e soberania do Senhor, mas eu gostaria de destacar apenas dois pontos.

Identidade

Entre tantos jovens Kaiowas uma jovem de cabelo rosa se destacava. Vestindo preto, sempre se isolando, de cabeça baixa e com os braços cheios de cicatrizes. Apaixonada por rock, inglês e skate foi assim que ela se apresentou para mim. Toda aquela aparência não a impediu de sorrir enquanto conversávamos. Em seu braço estava escrito “minha vida é triste” quando questionei sobre o motivo dessa frase, ela me respondeu que realmente sua vida era triste, que ela não se sentia amada e a solidão a fazia querer se machucar. Afirmou que era feia e não tinha amigos. Sua identidade estava abalada, ouso dizer que ela não possuía uma identidade. Ao apresentar o evangelho que traz vida, ela me contou que outra pessoa da equipe já havia conversado e explicado a ela que só em Jesus temos motivo para viver. Então ela ainda estava processando tudo e disse que já tinha orado e que iria tentar viver uma vida com Deus. Não sei ao certo o que aconteceu e se ela realmente decidiu entregar sua vida a Jesus, mas minha oração é para que ela encontre sua verdadeira identidade como Filha de Deus.

Em contrapartida tive a chance de conversar com outra adolescente, essa por sua vez se destacava dentre todos por seu sorriso constante. Me disse que por vezes sofre discriminação por ser índia, mas que ela tem certeza de que isso acontece porque as pessoas não conhecem Deus. Me disse também que não importava que eu fosse “branca” porque em Deus somos uma família só. Quando perguntei como era seu relacionamento com Deus, me contou que estava sempre em oração, conversando com Senhor até sobre as pequenas coisas da vida. Depois de conversarmos muito, ficou claro que ela realmente sabia quem ela era. Ela tem orgulho de ser índia, mas não era isso que a definia.

Contentamento

O que começou com sorrisos tímidos se transformou em gargalhadas constantes. Nossa “banda” era composta por um vocal, um violão e um cajon, mas era o louvor começar que parecia que eles estavam curtindo um super show, a alegria deles enquanto cantavam, dançavam e prestavam atenção em cada batida era lindo. No sítio tinha uma piscina, o fundo era verde, não faço ideia de quando foi a última vez que aquela água foi trocada. Isso não os impediu de mergulhar, fazer competição de barrigada e se divertir. Não tinham chuteiras, mas o futebol era levado a sério. O banheiro dos meninos era caótico, nem deveria ser chamado de banheiro e não convém contar os detalhes, mas isso não importava, eles entravam e saiam felizes da vida. Muitos não tinham bíblias, e quando foi dado a oportunidade de ganharem algumas, foi uma loucura, uma corrida para vez quem conseguia a Bíblia primeiro. Alguns repetiam a refeição várias vezes, pois não sabiam quando seria a próxima oportunidade de ter um “banquete” daqueles.

Conversando com o Tio Dirceu, o responsável pela viagem e pelo ministério com os índios lá, ele me contou que há algum tempo teve câncer e precisou fazer uma cirurgia. Uns 40 minutos antes de ser levado para a sala de operação, uma psicóloga veio conversar com ele. A médica se espantou ao ver que ele estava calmo e tranquilo, então pediu que medissem sua pressão, surpresos se depararam com 12/8, e o questionaram se ele não estava com medo de morrer ou se não queria mais viver. Ele respondeu: “Eu não tenho medo, eu quero muito viver, quero mesmo e Deus sabe disso. Mas eu não quero viver 10 minutos a mais se não for da vontade do Senhor, eu não quero viver 10 minutos a mais se não for para viver fazendo o que o Senhor quer que eu faça”. Acredito que ele realmente tenha entendido o Salmo 84, verso 10: “Melhor é um dia nos teus átrios do que mil noutro lugar”.

De volta à realidade

Chegamos na segunda-feira de manhã, passei a semana digerindo tudo aquilo que tinha vivenciado, tentando absorver cada pequeno detalhe do que o Senhor havia feito. No sábado, ao ouvir a pregação da Hendrika Vasconcelos, que falou sobre identidade e mais tarde ao ouvir o pastor de jovens Walter Pereira falar sobre contentamento, me trouxe uma conclusão. Não foi uma nova descoberta, mas uma verdade que precisa ser lembrada diariamente.

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5)

A nossa identidade não se baseia nas coisas que fazemos, certamente ela influência nossas ações, mas está além disso. Cristo tem que ser mais do que apenas o nosso referencial, Ele precisa ser a nossa identidade. Ao assumirmos nossa verdade identidade fica claro que a nossa filiação é com Deus. O mesmo Deus que enviou Jesus não apenas para morrer no nosso lugar, mas para gerar vida em nós. Ter uma identidade definida gera impacto em todas as áreas das nossas vidas.

“Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância” (Filipenses 4.11)

Para aprendermos algo precisamos ser expostos a esse algo, quanto mais vivenciamos maior será a nossa aprendizagem. Paulo estava falando com conhecimento de causa, ele mesmo já havia enfrentado diversas situações, foi preso, passou fome, passou necessidade e assim descobriu o segredo do contentamento, também descoberto por Salomão em Eclesiastes: Deus! Saber que o meu Pai, o Deus que criou todas as coisas, está no controle de tudo, saber que a sua graça é suficiente para mim, faz as coisas ficarem mais claras. Só me resta: viver como Jesus, ser um filho obediente até a morte! Ao nos adaptarmos a algo ou alguma situação demonstramos que estamos contentes com aquilo que o Senhor tem para nós, contentamento não tem a ver com o que temos. O pastor Jonas Madureira disse em uma de suas pregações que “A felicidade está exatamente na atitude de se tornar aquilo que Deus quer que você seja”.

A minha identidade definida em Cristo me leva a ter contentamento e viver satisfeito com o que Deus tem para mim.

JG