Se Deus é bom como Ele pode permitir que determinadas coisas aconteçam? Muitas vezes nós mesmos fazemos esse questionamento, essa dúvida em nosso interior acaba, ainda que inconscientemente, transformando Deus em um tirano. Eu não quero minimizar a sua dor, ou dizer que ela não é relevante. Muito pelo contrário, eu acredito que a dor e o sofrimento são necessários para o nosso amadurecimento e relacionamento com Deus.

C. S. Lewis (o autor das Crônicas de Nárnia, o melhor livro infanto-juvenil que eu já li e continuo lendo até hoje), em seu livro: O problema do sofrimento, tem como objetivo resolver um problema intelectual causado pelo sofrimento. Ele não busca ignorar a existência do mesmo e da dor na vida do cristão, mas tenta trazer uma aplicação para ele. Uma aplicação e não uma explicação.

“Por que sofremos?” e “Se Deus é bom, por que ele nos deixa sofrer?”

Lewis também aponta que a confusão que se faz com o significado de “bondade e benevolência” de Deus é a grande raiz dessas questões. Apesar de parecer ser a mesma coisa, existe uma sutil e importante diferença entre essas duas palavras e também se faz necessário entender o que significam. Benevolência em sua língua original traz o sentido de: ir ao encontro; boa vontade. Erramos em achar que a benevolência de Deus está ligada exclusiva e essencialmente aos sentimentos, sendo uma ação sentimental de Deus. Hoje é muito fácil se deixar levar pelo entendimento equivocado e errôneo de que benevolência é aquilo que nos faz felizes e completos. Se cairmos no erro de mensurar a bondade de Deus por nosso próprio entendimento/ conceito, estamos fadados a crer que essa bondade de Deus pressupõe algumas atitudes que mais se parecem com maldade.

Para explicar essa teoria, Lewis utiliza algumas analogias, como:

  • O amor de um artista por sua criação.
    “Mas o vaso de barro que ele estava formando se estragou-se em suas mãos; e ele o refez, moldando outro vaso de acordo com sua vontade” Jeremias 18.4. Um bom oleiro jamais deixará que um vaso que está criando fique com uma falha, ele então amassará a argila novamente e a moldará para que cada vez mais o vaso se aproxime da perfeição. O artista tem sua mente uma visão de como deseja sua obra, e ele não desistirá até concretizar sua visão;
  • O relacionamento entre um homem e uma mulher. Vale lembrar que muitas vezes a própria Bíblia utiliza dessa analogia para retratar o amor e relacionamento de Deus com o seu povo. Isso porque o amor verdadeiro busca sempre o aperfeiçoamento de seu amado. Quando nos relacionamos com quem realmente amamos, tendemos a buscar ser melhor, muitas vezes adquirindo o mesmo gosto e tentando nos tornar parecidos com essa pessoa. Trata-se de um amor dinâmico e não estático, ainda que Deus nos receba exatamente como somos, Ele não nos permitirá ficarmos assim.
  • O amor de um pai por seu filho. Talvez seja a a minha analogia preferida. Uma criança pequena tem por impulso fazer aquilo que tem vontade e que considera “bom” para ela, sendo assim, se surgir na cabeça de uma criança a ideia de sair correndo no meio da rua, ela simplesmente o fará. Nesse momento um pai que ame seu filho, em um instante agarrará com força o seu braço, o puxará para perto e provavelmente será firme com ele, talvez chegando até usar um tom mais “bravo” para repreendê-lo. Ao olhar para as atitudes de seu pai o primeiro pensamento que esse filho terá é “meu pai não me ama, ele é mau”. Mas o que aquela criança não entende, é que o pai em sua vasta experiência de vida e sabedoria entende os perigos daquela ação e sabe o que é melhor para seu filho.

Então assim como um filho muitas vezes só passa a entender as atitudes “maldosas” de seu pai depois que ele cresce e adquire um pouco mais de conhecimento e maturidade sobre a vida. Acredito que um dia nós chegaremos ao céu e possivelmente entenderemos todas as atitudes que consideramos “ruindade” da parte de Deus. Poderemos ver que, tal como um artista Ele tinha a visão do todo, da obra completa e perfeita que Ele mesmo criou. Dessa forma, o sofrimento é capaz de nos fazer ver as escolhas equivocadas que fizemos, também nos faz perceber a efemeridade e fragilidade da nossa vida, nos levando a refletir que o sofrimento é um exercício que produz perseverança, ou seja, a capacidade de continuar crendo em Deus ainda que tudo dê errado (Romanos 5. 1-11). Esteja preparado, quando o sofrimento chegar escolha crer que Deus nos ama e sábia e soberanamente vê coisas que nós não somos capazes de ver.

“Deus nos sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas brada em nosso sofrimento: o sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo” – C. S. Lewis

JG