Nas últimas semanas tenho me deparado com inúmeras frases que criticam o posicionamento dos cristãos, por exemplo: “esta eleição trouxe um grande aprendizado, existe uma enorme distância entre Cristo e os cristãos”; “cristão de verdade não apoia partido corrupto”; “quem é crente não apoia tortura porque Cristo foi torturado”; “as eleições nos ajudaram a ver quem é crente de verdade” e poderia seguir esse texto apenas citando frases desse tipo. Apesar de todas as frases aqui citadas estarem se referindo ao contexto da eleição, porque é o que temos vivido, podemos observar a mesma ideia em situações diferentes: “se você é arminiano/ calvinista está precisando se converter”; “cristão de verdade guarda o sábado/domingo”. Enfim, o que realmente precisa ter a nossa atenção é a premissa dessas frases, que basicamente é “se você pensa diferente do que eu penso que é certo, então você não é um cristão de verdade”.

Que vergonha do tipo de evangelho que está sendo defendido. Acredito ser válido relembrar alguns conceitos. Vamos começar com a salvação. Para falar da salvação vou usar três perguntas:

Por que o ser humano precisa da salvação?

Gênesis capítulo 3, fala a respeito de quando Eva e Adão desobedeceram a Deus e o pecado “entrou” no mundo, mas especificamente nos seres humanos. Como consequência, o pecado estaria na natureza de todos desde o nascimento. Por isso, “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3.23). Vale lembrar que em primeira instância o pecado agride a santidade e a moral de Deus. Sozinhos jamais conseguiríamos ter um relacionamento com Deus, estávamos em dívida e nada do que fizéssemos seria capaz de conquistar o perdão de Deus, ainda que morrêssemos, apenas estaríamos sofrendo a consequência de nossos pecados.  Precisávamos de um salvador, alguém perfeito o suficiente para não pecar e beber toda a ira de Deus em nosso lugar – Jesus.

Quem pode receber a salvação? Como?

Todo aquele que crer que Jesus é o único capaz de nos perdoar de nossos pecados, que Ele venceu a morte para que tenhamos uma vida ao lado de Deus (Romanos 5.8-11). Quer você acredite que Jesus veio por todos os homens, ou por todos os tipos de homens, a questão é que receber a salvação é um ato de graça e misericórdia de Deus. Ele criou o plano, Ele executou o plano, Ele morreu, Ele ressuscitou, Ele nos chamou para Ele e Ele nos perdoa. Sendo assim, apenas Deus é capaz de oferecer a salvação para os seres humanos. Fica evidente então que, a salvação vem de Deus, é dada por Ele, e nada posso fazer por meu próprio mérito para conquistá-la (Ef 2.9, Tt 3.4-6, Rm 3.20). Como disse Yago Martins “o objetivo de Jesus na cruz não é nos tornar salváveis, mas é efetivamente consumar a salvação”.

E entra aqui o segundo conceito que precisamos ter em mente: a origem do nome “cristão”. No livro de Atos, capítulo 11, versos 22 a 26 diz: “Notícias desse fato chegaram aos ouvidos da igreja em Jerusalém, e eles enviaram Barnabé a Antioquia. Este, ali chegando e vendo a graça de Deus, ficou alegre e os animou a permanecerem fiéis ao Senhor, de todo o coração. Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé; e muitas pessoas foram acrescentadas ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Assim, durante um ano inteiro Barnabé e Saulo se reuniram com a igreja e ensinaram a muitos. Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos”.  Antioquia, a terceira cidade do Império Romano, era onde se encontrava a primeira igreja constituída em sua maioria por gentios. As notícias que chegaram a igreja de Jerusalém eram sobre como o evangelho estava se espalhando pela cidade, sendo pregado não só para judeus mas para os gregos, e assim muitos creram e se converteram ao Senhor. Teólogos afirmam que enviar Barnabé fazia parte de uma “política” da igreja, para ver como os novos ministérios estavam caminhando. O significado da palavra cristão é “pertencente a Cristo” ou “pequeno Cristo”, isso quer dizer que provavelmente o comportamento dos fiéis de Antioquia estava se assemelhando muito ao de Jesus e aos seus ensinamentos. Quer esse apelido tenha sido dado como forma de zombaria ou apenas para diferenciá-los dos demais, faz jus aqueles que decidem seguir a Jesus Cristo.

Dessa maneira, entende-se que aqueles que creem em Cristo como único e suficiente salvador e decidem viver uma vida para Ele se tornam cristãos. Podemos dizer então, que cristão é o nome dado àqueles que foram salvos através do sacrifício de Jesus na cruz, ou seja receberam de Deus a salvação. Agora volto ao primeiro parágrafo desse texto, quem nos deu o direito e a autoridade de julgar quem é ou não cristão? Quem deixou que nós decidíssemos e definíssemos o que é ser um “cristão de verdade”? Óbvio que eu não estou falando de exortar pessoas que preguem abertamente da Palavra e dizem coisas contrárias ao que está lá. Também é claro que se o seu irmão se equivocar e por alguma razão a opinião dele for contra o que a Bíblia diz, você pode chegar a ele no particular e o exortar (Mateus 18.15). E sim, eu sei que nós reconhecemos uma árvore por seus frutos, mas as vezes algumas árvores passam por situações difíceis e precisam ter uns galhos podados para crescer ainda mais forte com mais frutos.

Discutir política ou qualquer outro assunto não é um problema, desde que o objetivo não seja ser o dono da razão, o cerne de qualquer discussão e de qualquer coisa que fizermos deve ser honrar e glorificar a Deus. Minha suplica é que meus irmãos em Cristo parem de validar a salvação dos outros, porque Jesus olha o que não podemos enxergar. Ele faz abundar graça onde só vemos pecado, Ele olha o coração enquanto nós olhamos aparência ou partidos (1 Samuel 16.7).

Julgar a salvação de alguém, ou melhor, reduzir a salvação de alguém baseado no partido ou candidato que esse cristão escolheu é se colocar no lugar de Deus e decidir por quem Jesus deve ou não morrer, não se esqueça que “há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo? ” (Tiago 4.12).

JG