Provavelmente você já ouviu alguém falar a nova gíria do momento, o famoso “ranço”. Se você ainda não se familiarizou com essa palavra talvez você conheça seus sinônimos. Após procurar por uma definição achei a original que é usada para falar sobre o cheiro e o gosto desagradável que uma comida bem gordurosa deixa ao entrar em contato com o ar. E o outro significado que é basicamente o fato de alguém ou alguma coisa não te agradar por “seja lá qual for o motivo”, isso gera um tédio, desprezo, repulsa, nojo e raiva na pessoa que tem ranço em relação ao seu alvo. Você não precisa de um motivo concreto e bem estabelecido para criar/pegar o ranço, ele pode ser apenas uma reação sua ao ver algo que não concorda ou que não faria/usaria/falaria. E existe até regras para o ranço, se você tem ranço de alguém consequentemente seus amigos também devem ter, ainda que eles não tenham motivo, o motivo deles passa a ser o fato de você ter o ranço. A outra regra é que aparentemente não tem como você “despegar” o ranço, uma vez com ele, sempre com ele.

Confesso que resisti um pouco para escrever esse texto, eu sentava para escrever e meu coração me bombardeava com perguntas do tipo “por que você vai perder seu tempo escrevendo sobre uma gíria? O que tem de mal nisso? Vai me falar que você não tem ranço de alguém também? ”. E foi nesse momento que eu percebi que sim, nós precisamos falar sobre isso. O ranço se estabeleceu no mundo e é até engraçado falar que você tem ranço de alguém. O grande problema é que isso está se infiltrando na igreja, eu mesma já me peguei falando “Ah, não é que eu não ame o fulano, Deus manda a gente amar, mas assim, eu não gosto muito dele não” ou “Ah que ranço de fulana” e eu poderia citar dezenas de outras frases em que mesmo sem falar a palavra ranço é ranço.

Eu tentei achar uma passagem na Bíblia que exemplificasse o ranço, e eu achei tantas que compensaria mais você simplesmente ler a Bíblia. Talvez o primeiro caso de ranço nas Escrituras seja o de Lúcifer, ele teve ranço de Deus e por isso desceu para tentar Eva; em seguida temos Cain que teve ranço de Abel e essa história acabou como primeiro caso de homicídio. Temos o ranço dos irmãos de José; os ranços que o povo tinha contra os profetas; o ranço da cunhada do rei que fez João Batista ser decapitado; o ranço com a mulher samaritana; com Maria Madalena; com Zaqueu; o ranço de Marta com Maria e até mesmo o ranço com Jesus. O fato é que o ranço é a máscara que colocamos nos pecados que não queremos assumir. Sendo assim, ranço pode ser definido como raiva, inveja, ciúmes, orgulho, indiferença; falta de amor, entre outros pecados. E o perigo do ranço em cobrir nossos pecados é nos fazer pensar que está tudo bem, quando na verdade existem raízes a serem tratadas em nosso ser. Gostaria de tratar o ranço a partir de três pontos importantes.

O primeiro deles está em 1 João capítulo 1, versos 8 e 9 que diz “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça”. Precisamos entender que colocar um nome mais “moderninho” para os nossos pecados não faz deles menos pecaminosos, todo pecado precisa ser tratado e confessado. E engana-se quem pensa que confessar significa apenas falar, o sentido dessa palavra vai muito mais além. Confessar é na verdade “concordar juntamente” (dizer a mesma coisa que alguém), o pastor Augustus Nicodemus explica: “É mais ou menos assim, Deus pelo seu Espírito Santo, chega na nossa consciência e diz ‘você pecou’. E aí nós dizemos ‘é verdade, eu concordo com o Senhor, eu pequei’. Nós concordamos com Deus”. Assim, o confessar não é uma reza, algo a ser repetido toda vez em que erramos, mas é um processo interno, devemos sondar nosso íntimo, perceber os pecados que o Espírito Santo de Deus irá apontar, humildemente concordar com Ele e deixar que Ele nos perdoe e nos restaure.

O segundo ponto também está na primeira carta a João, mas no capítulo 5, versos de 1 a 5: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, e todo aquele que ama o Pai ama também ao que dele foi gerado. Assim sabemos que amamos os filhos de Deus: amando a Deus obedecendo aos seus mandamentos. Porque nisto consiste o amor a Deus: obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados. O que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é que vence o mundo? Somente aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus”.  Vencer o mundo não está ligado a prosperidade e sim a vencer o nosso padrão de vida pecaminoso e é através da fé que temos em Jesus, que venceu a morte e todos os pecados na cruz, que nós também podemos vencer. Como?  Amando a Deus e consequentemente obedecendo seus mandamentos (inclusive o de confessar nossos pecados). Obedecer a Deus apesar de muito difícil não é algo impossível para nós que somos filhos dEle, isso porque não fazemos pela nossa autossuficiência, mas sim porque o Espírito Santo habita em nós e nos concede força para obedecermos.

Por fim, o terceiro e último ponto, que é tão importante quanto os outros dois, pode ser achado em diversos versos, mas vamos focar novamente em 1 João capítulo 4, versos 7 e 8 que diz assim: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor“. Vimos que ranço é a falta de amor, de empatia por alguém, mas a Palavra nos diz que se somos mesmo filhos de Deus, nascidos dEle através do sacrifício de Jesus na cruz, nós devemos amar uns aos outros. Em outros versículos vemos que Jesus nos deixa dois mandamentos primordiais, amar a Deus sobre todas as coisas e amar o nosso próximo como Cristo nos amou (você pode ler mais sobre esse tema clicando aqui). Jesus não apenas pede que nos amemos uns aos outros, como também pede em uma oração para que haja unidade na família de Cristo, “para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17.21). A minha bíblia de estudo traz a seguinte nota sobre este verso “a oração de Jesus repreende as divisões sem sentido e muitas vezes amargas entre os crentes”, nos dias atuais eu traduziria isso para: a oração de Jesus repreende o ranço entre os crentes!

Trate o ranço pelo que ele é: pecado. Vença o ranço através de quem nos deu a vitória na cruz: Jesus Cristo, que disse: “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele mesmo providenciará um escape, para que o possam suportar” (1 Coríntios 10.13). Mostre ao mundo que é sim possível “despegar ranço” porque fomos libertos do pecado e submetidos a graça de Deus (Romanos 6), o pecado já não tem mais domínio sobre nós. Escolha amar seu irmão, independente do que ele goste, use, fale ou possa ter feito, “amem-se sinceramente, porque o amor perdoa muitíssimos pecados” (1 Pedro 4.8). Se estiver muito difícil amar alguém saiba que existe uma “máquina do amor”, a oração. Interceda diariamente pela vida dessa pessoa, peça que o Senhor a abençoe, cuide dela, se revele a ela e que Ele também coloque em você o amor que Ele quer que você ofereça.

Precisamos ser um para que o mundo creia que Deus enviou Jesus, precisamos amar uns aos outros como Cristo nos amou, é impossível eu querer ser um com meus irmãos, é hipocrisia eu querer ser filho do amor se eu não sei amar.

JG