“Assim, comecei a esfregar-me, e as escamas começaram a cair de todos os lados. Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pele toda, inteirinha, como depois de uma doença ou como a casca de uma banana. Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho. Quando ia enfiando os pés na água, vi que estavam rugosos e cheios de escamas como antes. ‘Está bem’, pensei, ‘estou vendo que tenho outra camada debaixo da primeira e também tenho de tirá-la’. Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho. E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: ‘Deus do céu! Quantas peles terei de despir?’ Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): ‘Eu tiro a sua pele’. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair. Tirou-me aquela coisa horrível, como eu achava que tinha feito das outras vezes, e lá estava ela sobre a relva, muito mais dura e escura do que as outras. E ali estava eu também, macio e delicado como um frango depenado e muito menor do que antes. Nessa altura agarrou-me – não gostei muito, pois estava todo sensível sem a pele – e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor do braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente […] o leão me tirou da água e me vestiu com uma roupa nova.”

A viagem do Peregrino da Alvorada é uma das Crônicas de Nárnia escritas pelo ilustríssimo C. S. Lewis (meu autor favorito da vida). Esse trecho especificamente fala sobre Eustáquio Mísero, primo dos irmãos Pevensie (Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia) um menino rico, orgulhoso, egoísta e com um temperamento bem difícil. Por conta disso se relacionar com ele era uma tarefa quase impossível. Em uma de suas aventuras com seus primos, sua ganância o fez “pegar”, roubar, um bracelete de diamantes e isso o transformou em um dragão. O trecho acima narra o episódio mais importante na vida do menino-dragão.

O lado humano de Eustáquio (o propósito de sua existência) foi corrompido pelo pecado em seu coração. Se transformar em um monstro o fez perceber que ele precisava mudar, caso contrário seria impossível ter uma vida “normal”. Ele queria voltar a ser um menino, e tentou diversas vezes por sua própria força se livrar das escamas do dragão. Mas eram tentativas vãs, pois assim que se livrava de uma camada, descobria outra e o processo parecia não ter fim.

Todos somos como Eustáquio, temos nossa mente e coração corrompidos pelo pecado e isso nos afasta do propósito pelo qual fomos criados que é sermos à imagem e semelhança de Deus e render glórias ao nome dEle. É preciso entender que também fomos chamados para sermos santos: “Consagrem-se, porém, e sejam santos, porque eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Levítico 20.7). É essencial entender o que Deus quer dizer quando diz santos. É uma palavra de origem hebraica “KADOSH” e também significa separado, consagrado. Assim, entendemos que o Senhor nos chama para ser separados do pecado e estar a serviço de Deus, essa é a única conduta que O agrada.

Tal como Eustáquio nós precisamos nos livrar de nossas incontáveis escamas de dragão. Paulo nos aconselha, em Colossenses 3 “façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador” (v. 5-10). Esse é o processo de santificação e  só pode ser realizado por Deus (Levítico 20.8), não quero desanimá-lo mas geralmente é um processo lento. Quando Paulo diz “façam morrer” ele não está falando simplesmente “matem” é algo mais específico, como tirar aquilo que é essencial para permanecer vivo, numa maneira bem rude de falar seria algo como “ir fazendo morrer”. E por ser lento as vezes também é doloroso, Deus precisa tirar as camadas, tratar as feridas (leia mais sobre esse assunto aqui) e nos levar de volta ao nosso propósito inicial.

Como eu disse, apenas o Senhor pode nos santificar e isso só é possível à medida que o obedecemos, e para obedecê-lo precisamos nos relacionar com Ele constantemente, dia após dia.  Conforme conhecemos a Deus e deixamos que Ele nos molde, o Espírito Santo nos concede uma nova mentalidade. E assim somos separados da antiga maneira de pensar, isso quer dizer que eu não vivo condicionado ao que o mundo diz, ao que os movimentos defendem, ao que a ciência insiste em tentar provar. A minha opinião crítica está no que a Palavra me diz. Minha nova mentalidade me mostra o meu pecado e o que foi preciso ser feito para que houvesse perdão, fico consciente que o meu pecado é uma ofensa direta ao meu Deus. Dessa maneira a santificação é uma vida inteira de relacionamento com Deus através da Palavra.

O leão que se encontra com Eustáquio é Aslam, o único que poderia ajudá-lo. Apesar de toda dor veio o consolo. Depois que as garras afiadas alcançaram seu coração e removeram as escamas, uma pele sensível apareceu, uma pele humana pronta para usar sua nova roupa e viver uma vida abundante. Ah, como esse trecho me traz lágrimas aos olhos!

Minha oração é que você possa deixar o Leão (da tribo de Judá) tirar sua pele dia após dia e lhe conceder vida e vida em abundância.

JG