A Vida do Siga-me

Não é doce

Não é doce! Ou será que é? Páscoa, doce, chocolate… mais um texto para explicar que a Páscoa nada tem a ver com coelhos e ovos de chocolate, certo? Errado! Esse não é um texto desse tipo, e não estou desvalorizando os que são, apenas quero seguir uma outra vertente. Ao pensar sobre a páscoa muitas vezes me esqueço qual é o impacto que essa “data” tem em minha vida, e eu não quero que você siga por esse mesmo caminho. E se no seu caso a Páscoa não gera nenhum impacto em sua vida, talvez ao ler esse texto isso possa mudar, desafie-se a ler e descubra.

Origem da páscoa

Falar sobre a origem da páscoa é entrar num terreno delicado, uma área cheia de suposições, isso ocorre devido a insuficiência de dados e registros da páscoa no período pré-mosaico (antes de Moisés, aproximadamente século XIV antes de Cristo). No entanto e o mais importante é que, o relato mais antigo da páscoa na Bíblia se encontra no livro de Êxodo capítulo 12 (leia também capítulos 13 e 23), Deus estava prestes a enviar a décima praga ao Egito antes de libertar o seu povo que estava cativo. Ele passaria por todo o Egito e prometeu que “todos os primogênitos do Egito morrerão, desde o filho mais velho do faraó, herdeiro do trono, até o filho mais velho da escrava que trabalha no moinho, e também todas as primeiras crias do gado” (v.5), os israelitas não seriam atingidos desde que matassem um cordeiro, marcassem a porta com seu sangue e fizessem sua carne assada para comer.

Na mesma noite que o Senhor fosse ao Egito, o sangue na porta seria um sinal de seu povo e Ele passaria adiante. E então o povo seria liberto do Egito. Esse dia seria um memorial para eles de que o Senhor os libertou e eles deveriam continuar celebrando essa ocasião perpetuamente (Êxodo 12. 14-25). Finalmente no verso 27 aparece a palavra-chave “é o sacrifício da Páscoa ao Senhor, que passou sobre as casas dos israelitas no Egito e poupou nossas casas…” e o próprio verso já explica o significado da palavra Páscoa (do hebraico “pesah”, raiz verbal “psh”) é passar por cima, saltar por cima. E foi exatamente o que o Senhor fez naquela noite, passou por cima das casas marcadas dos israelitas e não os condenou.

Esse memorial do antigo testamento, na verdade, aponta para o que ainda iria acontecer, sinaliza a vinda do Messias, a salvação e libertação de todo o povo de Deus. Assim como os israelitas presos no Egito estavam sofrendo e ansiando por um resgate, nós seres humanos estamos presos ao pecado caminhando lentamente para nossa própria perdição, até que nos deparamos com a cruz. Antes de prosseguirmos, gostaria de trazer à memória fatos que são de extrema importância:

  • Deus criou o homem e a mulher e viu que era muito bom (Gênesis 1.26-27)
  • O pecado entrou no mundo quando ambos desobedeceram a Deus em busca de ser como o próprio Deus (Gênesis 3.1-7)
  • A partir desse momento todos nascemos em pecado e por isso estamos separados da presença de Deus (Romanos 3.23)
  • Deus prometeu que restauraria sua relação conosco mandando o Messias (Gênesis 3.15)

Nos dias atuais

Infelizmente, vivemos em uma geração que tem o péssimo habito de divulgar uma imagem equivocada de Deus. Cada vez mais “pregações” e músicas relatam um Deus que permite tudo, que aceita tudo, que está “de boa”, que não se ira, que é um amorzinho. É com temor que eu asseguro que ao ler a minha Bíblia eu não encontrei um Deus que se resumisse ou se assemelhasse a essas características. O Deus da Bíblia é um Deus tão glorioso, soberano, justo e Santo (Santo e Santo) que não compactua do pecado, porque o pecado fere a glória de Deus.

Não entenda errado, isso não faz dEle um Deus orgulhoso, mas quem além de Deus é tão grande? Quem é criador de todas as coisas? Quem, senão Deus, é o único que merece toda a glória?! A Bíblia mostra um Deus, que abriu fogo contra duas cidades por conta de suas impurezas (Gênesis 18 e 19), um Deus que “inundou” o mundo salvando apenas uma família porque as pessoas estavam vivendo apenas para suas próprias vontades (Gênesis 6 e 7), um Deus que liderou exércitos em incontáveis batalhas. Um Deus que é a própria justiça. Não, não é um Deus da ira, mas um Deus que se ira! E essa ira e justiça ficam ainda mais claras quando olhamos para a cruz.

Deus não mandou seu Filho unigênito porque Ele é um Deus “bonzinho”, Ele o fez porque é um Deus justo. O pecado havia entrado no mundo através de um homem, e o pecado interferiu na relação da humanidade com Deus. Era o véu que separava o homem de seu Criador. O pecado havia ferido o caráter de Deus e o homem por mais que tentasse não seria capaz de se desculpar com Deus, o homem merecia morrer. A justiça precisava ser feita.

Então, Deus enviou seu Filho o unigênito de toda criação, Jesus se fez carne. Andou em nosso mundo como homem sem cometer nenhum pecado. Não deixou de ser Deus, mas viu que isso não era algo a que deveria se apegar e veio a ser servo para nos ensinar (Filipenses 2.6-8). Um Filho, perfeito em toda sua existência e essência, digno de honra, digno de glória, foi esse filho que o Pai enviou a cruz. Algumas pessoas costumam falar que enquanto Cristo era crucificado Deus virou sua face. Mas para que toda a sua ira contra humanidade fosse saciada em uma única pessoa, o sacrifício era em primeiro instância um momento para o próprio Deus, ou seja, “fazia parte do plano do Senhor, esmagá-lo e causar-lhe dor” (Isaías 53.10a).

Ao olhar para as Escrituras percebemos um único momento em que Jesus se sentiu sozinho e agoniado. Na madrugada antes de ser preso Jesus chama seus três discípulos mais próximos para ir ao Getsêmani orar. “Disse-lhes então: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem comigo”(Mateus 26.38 – grifo do autor). Contudo, seus amigos acabaram dormindo enquanto Jesus orava revelando assim o motivo de sua tristeza “prostrou-se com o rosto em terra e orou: Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres” (Mateus 26.39 – grifo do autor).

Esse cálice citado por Jesus, não se refere a cruz, a dor, a morte ou a humilhação, e sim a algo muito maior que tudo isso. Esse cálice estava cheio da ira de Deus (referência a profecia em Jeremias 25.15). Ao ser crucificado Jesus bebeu o cálice até a última gota para que nós não tivéssemos que bebê-lo. Assim, a ira do Senhor foi saciada em Cristo.

Mas e o amor?

De maneira alguma isso significa que não houve amor na cruz. Houve, e muito! A cruz é sobre Deus e Deus é amor (1João 4.8). Houve amor sacrificial de um Filho por seu Pai e seus irmãos e o de um Pai por seus filhos. “Porque Deus tanto amou o mundo que enviou seu Filho unigênito, para que todo que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (João 3.16 – grifo do autor).

Assim como no Egito Deus passou por cima das casas dos israelitas, na cruz Ele passou por cima dos nossos pecados e transpassou Jesus em nosso lugar (Isaías 53.5). Foi um ato “amargo” de justiça, mas para demonstrar amor Deus tinha que afastar o pecado de nossas vidas. Não se engane, não é apenas a morte de Jesus que nos trouxe salvação, a obra é completa por causa de sua ressurreição. Que esperança teríamos se Ele permanecesse morto?

Em sua morte somos perdoados, e em sua ressurreição temos nova vida, e vida em abundância! Paul Washer certa vez disse que “o homem precisa experimentar a morte para ter um vida ressurreta”. Que ao celebrar a páscoa possamos nos lembrar que éramos um povo cativo ao pecado, todavia fomos libertos no ato de justiça que mais demonstrou amor em toda a história.

A Páscoa não pode ser doce se o amargo da cruz não for provado, ou nas palavras de Thomas Watson “Enquanto o pecado não for amargo, Cristo não será doce”.

JG

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