Você certamente já deve ter ido a um cemitério, ou já deve ter visto em algum lugar que as lápides contêm algumas informações: nome, alguma frase, uma foto, a data de nascimento – um traço – e a data do óbito. Esse traço, nada mais é do que a nossa vida, toda a nossa vida resumida a um pequeno traço. O traço que separa a data do nosso nascimento com a data da nossa morte. Como temos vivido esse traço? É necessário decidir como vamos usar nosso traço de vida.

Em salmos capítulo 90, versículo 12 o salmista diz: “Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria”.  Tendo em mente que o nosso tempo na terra é limitado e não volta, é um tempo efêmero, é preciso ter sabedoria para gastá-lo. Que bom seria se ao descobrir quanto tempo de vida você tem, não fosse necessário ser feita nenhuma mudança radical na sua maneira de viver. O salmista nos ensina que devemos entender a finitude da nossa vida para que passamos a vivê-la com sabedoria, sabedoria essa que procede do Senhor.

Uma boa aula de literatura, com um ótimo e querido professor me mostrou que a poetisa Anne Bradstreet ao presenciar um incêndio em sua casa nos ensina três lições bem importantes sobre como devemos viver.  Anne morava nos Estados Unidos, casada, mãe de oito filhos e avó de alguns netos, no dia 10 de julho de 1666 ela acordou no meio da noite com gritos “fogo, fogo” e o estalar da madeira de sua casa queimando. Quando seus olhos se acostumaram com a claridade do fogo, ela pode ver o que estava acontecendo, sua primeira reação foi clamar a Deus em seu coração, pedindo que Ele a fortalecesse em meio a angustia, que Ele não a deixasse desamparada. Então Anne finalmente saiu de sua casa, e pode vê-la queimar e ser destruída, e quando ela já não conseguia mais olhar, deu graças ao nome de Deus que dá e que tira. E apesar de ver todos os seus bens virarem pó ela achou isso justo. Como ela pode achar isso justo? Simples, “It was His own, it was not mine / Far be it that I should repine” ela diz que as coisas que ela tinha pertenciam ao Senhor, e longe dela querer reclamar de algo, se era dEle, nada mais justo do que Ele decidir quando retirar dela aquilo que Ele apenas tinha cedido a ela. Dias após o incêndio Anne não se recusava passar por onde costumava ficar sua casa e encarar, ainda que com olhos mareados o que um dia foi seu lar. O lugar onde ela guardava suas coisas, onde as pessoas riam e tinham conversas agradáveis agora era o lugar onde Anne tinha perdido tudo, inclusive uma nora e um netinho. E ali, vendo as cinzas do que costumava ser sua casa, ela se recorda que tudo é vaidade e começa a exortar o seu próprio coração. Questionando-o do motivo que o levava a estar triste, descobrindo que ela amava as coisas materiais, ela amava tudo o que tinha construído e conseguido, e ela percebe que foi nisso que ela havia colocado sua felicidade, sua confiança e sua segurança. E ela segue dizendo que não deve se apegar ao que agora está destruído porque o seu lar com Deus é eterno, o criador de tudo preparou para nos moradia na eternidade em glória, e Ele pagou um preço muito alto por isso. Anne termina dizendo que a esperança e o tesouro dela estão acima do céu.

Primeira lição, mesmo quando tudo ao nosso redor está desmoronando nós temos em quem buscar refúgio, a primeira ação dela não foi pedir a Deus que a livrasse daquela tragédia, ela não se mostrou uma vítima, uma coitadinha, pelo contrário, ela pediu forças para passar por aquele momento ao lado de Deus. E ela vai mais além, ela entende que se foi Deus quem deu tudo aquilo para Ela, é justo que Ele “pegue de volta” a hora que Ele quiser, e ela não tem o direito de reclamar, pois tudo que Deus faz é justo. Impossível não citarmos Jó, que passou por uma situação bem semelhante e até pior “O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor” (Jó 1.21)

Segunda lição que aprendemos é que não devemos voltar o nosso coração para as coisas terrenas, para aquilo que conquistamos, compramos e adquirimos ao longo da nossa vida. Vemos Anne exortando o próprio coração quando percebeu que sua confiança e alegria estavam depositados em seus bens materiais. Fazendo um paralelo com Eclesiastes, Anne alega que tudo é vaidade, nos lembrando de que tudo que conquistarmos aqui não sem significado nenhum, nada faz sentido embaixo do sol.

E por fim a terceira lição, que também conclui a segunda lição, Anne recorda que o que realmente importa, é que Deus já preparou uma morada para os seus no céu, essa morada foi feita a custa de um alto preço, preço que nunca conseguiremos ter noção. Percebemos então, que o que quer que tenhamos em terra não faz sentido, a não ser que nossa esperança esteja acima do sol. Levante os seus olhos para o céu, é de lá que vem o socorro, o amor, o perdão. Tudo que podemos ter de mais grandioso e de maior valor se encontra ao lado de Deus.

Se queremos viver a eternidade ao lado de Deus, devemos abraçar cada dia na terra sendo um presente de Deus, uma nova chance de crescermos em graça com Ele, é um novo dia de aula em que o professor é o Espírito Santo e nos ensina a focarmos em Cristo, e assim como Ele sermos obedientes e cumprirmos o nosso chamado. Não devemos esperar uma crise para percebemos que devemos viver plenamente, pois em Cristo temos vida e vida em abundância. Paulo nos diz que foi para a liberdade que Cristo nos libertou e que não devemos usar da liberdade para dar ocasião à vontade da carne. Se morremos com Cristo, com Cristo também devemos viver. Seria um enorme desperdício viver a vida de Cristo em nós de maneira medíocre.

“Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida?” Tiago 4.14

Viva o seu traço mantendo “o pensamento nas coisas que são do alto, e não nas coisas terrenas” Colossenses 3.2

  JG